quinta-feira, 24 de novembro de 2016

E nem notaram

Eu vi a massa que deixou de ser acéfala
lutando contra aquela conduta anômala.
Tentaram impor-nos uma condição vassala,
não tinham mais a exclusividade da fala.

Vi tolerância transmutar-se em ignorância

dos que defendem a mais vil hegemonia.
Em meio ao povo, pulsava a agonia,
do velho embate: democracia x tirania.

Eu vi as mentes saindo do escuro,

aprendizado de quem luta páreo-duro.
Podem pichar ou mesmo derrubar o muro:
mais do que o hoje, perderam o futuro.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Mais belas curvas



Incrustada em recanto discreto
a convergência do insólito e concreto
Realidade pronta a ser transmutada
no expandir da moldura encarnada
Estrondar de supernova, brilhante
em arrabalde da galáxia, distante
espargindo uma energia, pulsante
Expressão de brasilidade, ululante
trinar de um uirapuru, viciante
momento de inspiração, diamante
E à Monalisa de expressão desabrida
em sua encenação de sobriedade, fingida
restaria soturna face, tingida
ao reconhecer que fora até então iludida
O que há de fantástico no estático enigmático,
comparado ao antológico lúdico do sorriso holístico?

sábado, 30 de maio de 2015

Panegírico traseiro

No começo do país, era a bunda...
Mais que reles visão hipnótica,
apaziguadora da tensão dialética
Transmutadora da moral etnocêntrica
em aprazível contemplação empática

Amalgamadora fecunda,
fez de um povo de origem eclética,
sem qualquer coordenação sistêmica,
indelével expressão sincrética:
supedâneo da expansão demográfica

A identidade brasileira a circunda
como a um ente de origem metafísica
Cuja ritualística encerra-se na estética
da passista a rebolar lisérgica:
fonte de adoração dogmática

Prescindindo da corrupta política,
estabelece comunhão sinérgica
com a métrica de sua risada sarcástica,
sendo aos males do país antagônica
e fulcro de uma ética enigmática

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

HUE3

Se rir de tudo fosse desespero,
todo brasileiro seria um desesperado
que em patética empreitada
procura disfarçar a tristeza engendrada
fazendo de tudo frenética piada

Ri-se da dor, ri-se da morte
ri-se da pobreza e ri-se da falta de sorte

E, nessa afetação de alegria pateta,
o brasileiro, mais fingidor que o poeta,
chega a esquecer que é dor
a dor que deveras sente

Em nossa consciência venal
o fingimento imbrica-se no real.
O lamentável e o aprazível
convivem de modo indistinguível
como num samba de raiz
de letra triste e batida feliz

O lúgubre rende-se ao lúdico
e a dor à exultação
Nosso sorriso mais pudico
é filho da frustração

No Brasil, a verdade universal
é indelevelmente paradoxal:
toda lágrima é alegria em potência
toda rizada é soturna evidência

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Definição

Não se faz escrutínio de coração
Não se define sentimento

Não espere achar a dimensão
do que não cabe em um momento,
como não se resume a canção
ao acorde lançado ao vento

Impossível encontrar explicação
para algo maior que o ser e o tempo
Não se pode ter definição
do que transcende o pensamento

( )

Nossa quintessência ontológica
é a dúvida antológica,
a tibieza biológica,
a vazies etiológica
e a felicidade módica

Nosso caminhar constante
em passo claudicante
é testemunha eloquente
da persistência indecente
de um impulso arrogante

Conjunto: de caminhos desencaminhados,
objetivos sem um fim colimado,
necessidade de amar e incerteza de ser amado,

Fluindo de modo incogitável,
para um destino inevitável,
indiferente aos esforços do ser cognoscente, 
em sua imposição de sentidos, vulgar e premente