Se
rir de tudo fosse desespero,
todo
brasileiro seria um desesperado
que
em patética empreitada
procura
disfarçar a tristeza engendrada
fazendo
de tudo frenética piada
Ri-se
da dor, ri-se da morte
ri-se
da pobreza e ri-se da falta de sorte
E,
nessa afetação de alegria pateta,
o
brasileiro, mais fingidor que o poeta,
chega
a esquecer que é dor
a
dor que deveras sente
Em
nossa consciência venal
o
fingimento imbrica-se no
real.
O
lamentável e o aprazível
convivem
de modo indistinguível
como
num samba de raiz
de
letra triste e batida feliz
O
lúgubre rende-se ao lúdico
e
a dor à exultação
Nosso
sorriso mais pudico
é
filho da frustração
No
Brasil, a verdade universal
é
indelevelmente paradoxal:
toda
lágrima é alegria em potência
toda
rizada é soturna evidência
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