quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

HUE3

Se rir de tudo fosse desespero,
todo brasileiro seria um desesperado
que em patética empreitada
procura disfarçar a tristeza engendrada
fazendo de tudo frenética piada

Ri-se da dor, ri-se da morte
ri-se da pobreza e ri-se da falta de sorte

E, nessa afetação de alegria pateta,
o brasileiro, mais fingidor que o poeta,
chega a esquecer que é dor
a dor que deveras sente

Em nossa consciência venal
o fingimento imbrica-se no real.
O lamentável e o aprazível
convivem de modo indistinguível
como num samba de raiz
de letra triste e batida feliz

O lúgubre rende-se ao lúdico
e a dor à exultação
Nosso sorriso mais pudico
é filho da frustração

No Brasil, a verdade universal
é indelevelmente paradoxal:
toda lágrima é alegria em potência
toda rizada é soturna evidência